sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Partir

Ir embora não é só despojar o coração de tudo o que nos faz sentir acompanhados. É muito mais do que o desconforto, é arrancar da pele o abraço de todos os dias e fugir a sete pés do familiar sem os pés quererem sair do lugar. Ter de sair da "nossa casa" é arriscar no mundo aquilo que somos e testar os limites do que ainda vamos ser. É dizer adeus aos lençóis a cheirar a casa, é ter saudades da comida da avó, é dormir numa cama que não queremos que seja nossa mas que vai ser o nosso aconchego. Ter de partir, para garantir que a vida não nos esmaga, não é só deixar os sorrisos que nos aquecem as manhãs, nem a cumplicidade do cumprimentar que é só nosso, nem se fica pelos vazios de que preenchemos todos os sítios onde queremos voltar. Por mais fotografias a Lisboa, por mais promessas de visitas, por mais que percorramos as ruas e coloquemos em cada calçada as nossas palavras, Lisboa há-de ser sempre o lugar onde nos deixamos descansar. É onde deixamos quem gostamos, o primeiro passo de quem não vamos ver crescer, a última palavra de quem não voltamos a ver, as boas notícias com abraços pendurados pela distância. É onde deixamos o coração, a parte que dá para deixar, sem impedir que cresça também. Deixamos uma parte do coração em cada despedida que dizemos. E não nos conforta o "tem de ser", o "vai ser tão bom", o "vais crescer tanto", o "é o melhor para ti" porque, apesar de tudo verdade, custa deixar quando não se pode ficar. Ir embora é uma treta. Uma aprendizagem. Uma colecção de amigos por fazer e cumplicidades por viver. Uma aventura que tentamos partilhar mas que nunca sabe ao mesmo do que vivemos.É um caminho sem volta, porque descobrir que há muito mais é não nos contentarmos com menos. Partir é deixar o que sempre vimos como nosso. É perder muitas histórias. Mas é também o voltar, com vontade de partir outra vez.